Pergunta aos castanheiros perfilados
da Índia, como estão amarelecidos,
pergunta-lhes por nós de amores proibidos
de afectos perseguidos e trocados
pergunta-lhes na quietude dos espelhos
que a água faz no rubro ocre das cores
onde choraram lágrimas e dores
sombras gigantes dos seus troncos velhos.
pergunta aos castanheiros que este outono
me sucederam terminado o estio
ou aos patos selvagens que sem dono
chapinam a gritar no meio do rio
pergunta-lhes porquê o abandono
a que me dou neste nórdico frio.
Na floresta, a pé, que paz de ausente
e tudo quanto foi substantivo
é oco nu na alma simplesmente
tão livre da grilheta de cativo.
são maduras as folhas e a semente
que se pendura ou cai no chão nativo
é natureza a dispor-se contente
para em breve repor novo vestido
brancos troncos de bétulas despindo
tais penas que voando em desalinho
arrastam outras penas que eu seguindo
bebi com trago doce a velho vinho
tão assente e sereno que sorrindo
só me restam delicias do caminho.
Relembro aquele oásis no deserto
e por minha mansão os braços dela
dormíamos á noite a céu aberto
corpo com corpo parcela com parcela.
surgiam caravanas com afã
mal se espalhava luz pelo nascente
e o sol que vinha em dunas na manhã
adormecido em ti, sorria á frente.
e o deserto mar dessa miragem
nos fazia sonhar como gigantes
por vezes era alto e outras margem
limitada na areia por instantes,
pegava-te nas mãos e a fresca aragem
depositava em nós sonhos distantes.
Tenho teus olhos como gotas de água
presas em flores de rosa e de perfume
e cinjo-te a cintura, aperto, trago-a
colada ao corpo findo de azedume.
já não existe o amargo duma mágoa
nem limite de ideia me resume
a vivência, se foi, agora afago-a
como tesouro e não como queixume.
e assim cada momento é uma história
que sendo dois acaba por ser minha
retorno inconsciente na memória
ou consciente sigo a plana linha
não me separa a velha trajectória
antes porém revive e me acarinha.
A ilha não tem porto no deserto
é fúria nas falésias e no vento
nos picos aguçados desalento
andam medos voando em desacerto.
poucos barcos navegam, instrumento
não há ,nem rota certa em tempo incerto
o mar revolto faz no longe o perto
sobre farol sem luz , nem firmamento.
embrenho-me pelas horas, subo a bruma
renascida do chão a cada instante
peregrino por mim de sede errante
embriagado em mosto que se fuma
sobre o abismo, pressentida espuma
e mãos que não tem bússula ou sextante.
Tu que suspiras sobre o teu retrato
de tanto suspirar não o coordenas
estão-lhe a nascer negras rugas no trato
e torce-se a moldura nas empenas.
puxo do tempo o sorriso ,insensato
que sou no improviso entre dezenas,
fúrias, desejos, um querer abstracto
pó que na alma se desfez em penas.
nem sempre de desprezo ou de ciúme
de culpas, embaraços e receios,
nem sempre a emoção ou o perfume
mas sempre esses sorrisos, eu amei-os,
guardo o retrato como guardo o lume
dos beijos que fazia pelos teus seios.
Pergunto-me quem sou, pobre mania
de mim que sou um brusco e frágil ser
nunca seria mar ou penedia
habita-me o meu pouco conhecer.
por tal, reconhecendo a própria via
cérebro e mente sem a saber dizer,
não sei da rota que me desafia
nem do deserto que me faz mover.
saudoso dum domingo e da lembrança
avolumada em dados no arquivo
o corpo ora experimenta e ora avança
sou dele agente e dele sou cativo
se me pergunto é que ainda me dança
o verbo ante o não ter definitivo.
Caminha por aí, fora do rumo
quando tudo acabou , copos vazios,
o tempo esfarrapou-te nos seus fios
o pêndulo parou , caiu a prumo.
tão breves os momentos de atavios
e se foram os sonhos num resumo
a vida ardeu, evaporou-se em fumo
amigo, no inverno dos teus estios.
partiste, não morreste, que a seguir
a via não tem outra alternativa
resta-nos a memória consentida
do vinho que não há para repartir
segues para além do hoje e do devir
levas adeus, não levas despedida.
Se para falar de amor estivesse cedo
no tempo e na loucura de viver
despontaria em ti qual grego aedo
longe que fosse ou perto do teu ser.
se de extensão houvesse mais enredo
caminho e outra teia por tecer
chamaria por ti tão presto e ledo
quanto espontâneo tal pudesse ser
como verão , que passa e não resiste
ao clima que lhe transforma a luz
a sorte que me leva não existe
ao rio que me traga me reduz
àquele grão pequeno que persiste
que ás vezes se embriaga e me reluz.
Os barcos são pequenos, puxa o vento
pela vela branca da espuma do mar
sentado pelo cais olho e contento
meu desejo de não poder voar.
escorre alvura dos seixos , no cinzento
onde a ondulação é acabar
e o corpo de sereia que eu invento
negra de sol aqui se vem banhar.
uns pelos outros deslizando leves
a quilha á brisa o leme sem rumar,
água que brinca em movimentos breves
quando me volto e sigo o navegar
aprendizagens ! como são tão leves
velas puxando pelo meu ficar.
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