Sábado, 19 de Novembro de 2011
DJURGARDSBRUNNVIKEN

 

 

Pergunta aos castanheiros perfilados

da Índia, como estão amarelecidos,

pergunta-lhes por nós de amores proibidos

de afectos perseguidos e trocados

 

pergunta-lhes na quietude dos espelhos

que a água faz no rubro ocre das cores

onde choraram lágrimas e dores

sombras gigantes dos seus troncos velhos.

 

pergunta aos castanheiros que este outono

me sucederam terminado o estio

ou aos patos selvagens que sem dono

 

chapinam a gritar no meio do rio

pergunta-lhes porquê o abandono

a que me dou neste nórdico frio.

 




Sábado, 5 de Novembro de 2011
SICKASJON

 

Na floresta, a pé, que paz de ausente

e tudo quanto foi substantivo

é oco nu na alma simplesmente

tão livre da grilheta de cativo.

 

são maduras as folhas e a semente

que se pendura ou cai no chão nativo

é  natureza a dispor-se contente

para em breve repor novo vestido

 

brancos troncos de bétulas despindo

tais penas que voando em desalinho

arrastam outras penas que eu seguindo

 

bebi com trago doce a velho vinho

tão assente e sereno que sorrindo

só me restam  delicias do caminho.

 



publicado por Peter às 22:59
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
CADIJA

 

Relembro aquele oásis no deserto

e por minha mansão os braços dela

dormíamos á noite a céu aberto

corpo com corpo parcela com parcela.

 

surgiam caravanas com afã

mal se espalhava luz  pelo nascente

e o sol que vinha em dunas na manhã

adormecido em ti, sorria á frente.

 

e o deserto mar dessa miragem

nos fazia sonhar como gigantes

por vezes era alto e outras margem

 

limitada na areia  por instantes,

pegava-te nas mãos e a fresca aragem

depositava em nós sonhos distantes.

 




Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
GOTAS

 

 

Tenho teus olhos como gotas de água

presas em flores de rosa e de perfume

e cinjo-te a cintura, aperto, trago-a

colada ao corpo  findo de azedume.

 

já não existe o amargo duma mágoa

nem limite de ideia me resume

a vivência, se foi, agora afago-a

como tesouro e não como queixume.

 

e assim cada momento é uma história

que sendo dois acaba por ser minha

retorno inconsciente na memória

 

ou consciente sigo a plana linha

não me separa a velha trajectória

antes porém revive e me acarinha.

 




Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
FAROL

 

A ilha não tem porto no deserto

é fúria nas falésias e no vento

nos picos aguçados desalento

andam medos voando em desacerto.

 

poucos barcos navegam, instrumento

não há ,nem rota certa em tempo incerto

o mar revolto faz no longe o perto

sobre farol sem luz , nem firmamento.

 

embrenho-me pelas horas, subo a bruma

renascida do chão a cada instante

peregrino por mim de sede errante

 

embriagado em mosto que se fuma

sobre o abismo, pressentida espuma

e mãos que não tem bússula ou sextante.

 



publicado por Peter às 23:35
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011
RETRATO

 

Tu que suspiras sobre o teu retrato

de tanto suspirar não o coordenas

estão-lhe a nascer negras rugas no trato

e torce-se a moldura nas empenas.

 

puxo do tempo o sorriso ,insensato

que sou no improviso  entre dezenas,

fúrias, desejos, um querer abstracto

pó que na alma se desfez em penas.

 

nem sempre de desprezo ou de ciúme

de culpas, embaraços e receios,

nem sempre a emoção  ou o perfume

 

mas sempre esses sorrisos, eu amei-os,

guardo o retrato  como guardo o lume

dos beijos que fazia pelos teus seios.

 




Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011
PERGUNTA

 

Pergunto-me quem sou, pobre mania

de mim que sou um brusco e frágil ser

nunca seria mar ou penedia

habita-me o  meu pouco conhecer.

 

por tal, reconhecendo a própria via

cérebro e mente sem a saber dizer,

não sei da rota que me desafia

nem do deserto que me faz mover.

 

saudoso dum domingo e da lembrança

avolumada em dados no arquivo

o corpo ora experimenta e ora avança

 

sou dele agente e dele sou cativo

se me pergunto é que ainda me dança

o  verbo ante o não ter definitivo.

 




Sábado, 6 de Agosto de 2011
MEMÓRIA

 

Caminha por aí, fora do rumo

quando tudo acabou , copos vazios,

o tempo esfarrapou-te nos seus fios

o pêndulo parou , caiu a prumo.

 

tão breves os momentos de atavios

e se foram os sonhos  num resumo

a vida ardeu, evaporou-se em fumo

amigo, no inverno dos teus estios.

 

partiste, não  morreste, que a seguir

a via não tem outra alternativa

resta-nos a memória consentida

 

do vinho que não há para repartir

segues para além do hoje e do devir

levas adeus, não levas despedida.

 



publicado por Peter às 23:19
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
TARDE

 

Se para falar de amor estivesse cedo

no tempo e na loucura de viver

despontaria em ti qual grego aedo

longe que fosse ou perto  do teu ser.

 

se de extensão houvesse mais enredo

caminho e outra teia por tecer

chamaria por ti tão presto e ledo

quanto espontâneo tal pudesse ser

 

como verão , que passa e não resiste

ao clima que lhe transforma a luz

a sorte que me leva não  existe

 

ao rio  que me traga me reduz

àquele grão pequeno que persiste

que ás vezes se embriaga e me reluz.

 




Sábado, 16 de Julho de 2011
VELEIROS

 

Os barcos são pequenos, puxa o vento

pela vela branca da espuma do mar

sentado pelo cais olho e contento

meu desejo de não poder voar.

 

escorre alvura dos seixos , no cinzento

onde a ondulação é acabar

e o corpo de sereia que eu invento 

negra de sol aqui se vem banhar.

 

uns pelos outros deslizando leves

a quilha á brisa  o leme sem rumar,

água que brinca em movimentos breves

 

quando me volto e sigo o navegar

aprendizagens ! como são tão leves

velas puxando pelo meu ficar.

 




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