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Tenho-te mui esquecido na memória
dos factos recentes desinteresse
tanto ás vezes me falta outras parece
que se apagou o verbo e oratória
porque me foge a rima ás vezes penso
ter-se esgotado a pobre inspiração
quando o corpo ma pede a mente não
e dela assim me livro e me dispenso
e porque só a mim e a mais ninguém
faz falta este vazio de interior
não quero prolongar o estertor
em que tal velho escrito se mantem
adeus amigos meus adeus leitor
andando indo vou por aí além.
Tenho por mim acerto e um ajuste
comigo só , eu não festejo a sorte
do meu natal que sem estrela do norte
me traz triste figura num embuste
não creio mas compreendo esta ousadia
de me querer entre deuses comensado
viver do essencial que me foi dado
saber se o absurdo a ver-me havia
de quem herda abdómen ,o bater
falível deste ser circulatório
onde me fui buscar e fiz trazer
um menino Jesus sem oratório
aqui neste calhau para me perder
eu como outro qualquer ambulatório.
Passava a saltitar pulando a rua
em que ali estava eu vendo o seu passo
acendia o meu sol no seu regaço
como se o dia fosse á luz da lua
em aquele minuto de harmonia
quimérica razão no meu mar jónico
explodia de amor amor platónico
a idade que em mim se entontecia
aconteceu que num minuto apenas
deixei de a ver surgir pela manhã
o que esperei foi esperança sempre vã
chovendo em mim dilúvio de mil penas
foi uma historiografia de morenas
faces trigueiras tintas de romã.
Tão frívolos encantos eu sustento
no remo da maré desta passagem
que já marquei de volta outra viagem
quer esteja frio ou assobie o vento.
a gélida carcaça da coragem
onde me aqueço á vida, onde me tento
ainda é dentro calor, aquecimento
o sonho igual á primeira mensagem.
não digo adeus, apenas sigo a estrada
o comboio que vai é o que vem
vou vazio de mim, não levo nada
vou como todos os outros e ninguém,
tenho no bolso um mapa, uma morada
onde por certo há-de morar alguém.
Pergunta aos castanheiros perfilados
da Índia, como estão amarelecidos,
pergunta-lhes por nós de amores proibidos
de afectos perseguidos e trocados
pergunta-lhes na quietude dos espelhos
que a água faz no rubro ocre das cores
onde choraram lágrimas e dores
sombras gigantes dos seus troncos velhos.
pergunta aos castanheiros que este outono
me sucederam terminado o estio
ou aos patos selvagens que sem dono
chapinam a gritar no meio do rio
pergunta-lhes porquê o abandono
a que me dou neste nórdico frio.
Relembro aquele oásis no deserto
e por minha mansão os braços dela
dormíamos á noite a céu aberto
corpo com corpo parcela com parcela.
surgiam caravanas com afã
mal se espalhava luz pelo nascente
e o sol que vinha em dunas na manhã
adormecido em ti, sorria á frente.
e o deserto mar dessa miragem
nos fazia sonhar como gigantes
por vezes era alto e outras margem
limitada na areia por instantes,
pegava-te nas mãos e a fresca aragem
depositava em nós sonhos distantes.
Tu que suspiras sobre o teu retrato
de tanto suspirar não o coordenas
estão-lhe a nascer negras rugas no trato
e torce-se a moldura nas empenas.
puxo do tempo o sorriso ,insensato
que sou no improviso entre dezenas,
fúrias, desejos, um querer abstracto
pó que na alma se desfez em penas.
nem sempre de desprezo ou de ciúme
de culpas, embaraços e receios,
nem sempre a emoção ou o perfume
mas sempre esses sorrisos, eu amei-os,
guardo o retrato como guardo o lume
dos beijos que fazia pelos teus seios.
Caminha por aí, fora do rumo
quando tudo acabou , copos vazios,
o tempo esfarrapou-te nos seus fios
o pêndulo parou , caiu a prumo.
tão breves os momentos de atavios
e se foram os sonhos num resumo
a vida ardeu, evaporou-se em fumo
amigo, no inverno dos teus estios.
partiste, não morreste, que a seguir
a via não tem outra alternativa
resta-nos a memória consentida
do vinho que não há para repartir
segues para além do hoje e do devir
levas adeus, não levas despedida.
Se para falar de amor estivesse cedo
no tempo e na loucura de viver
despontaria em ti qual grego aedo
longe que fosse ou perto do teu ser.
se de extensão houvesse mais enredo
caminho e outra teia por tecer
chamaria por ti tão presto e ledo
quanto espontâneo tal pudesse ser
como verão , que passa e não resiste
ao clima que lhe transforma a luz
a sorte que me leva não existe
ao rio que me traga me reduz
àquele grão pequeno que persiste
que ás vezes se embriaga e me reluz.
Os barcos são pequenos, puxa o vento
pela vela branca da espuma do mar
sentado pelo cais olho e contento
meu desejo de não poder voar.
escorre alvura dos seixos , no cinzento
onde a ondulação é acabar
e o corpo de sereia que eu invento
negra de sol aqui se vem banhar.
uns pelos outros deslizando leves
a quilha á brisa o leme sem rumar,
água que brinca em movimentos breves
quando me volto e sigo o navegar
aprendizagens ! como são tão leves
velas puxando pelo meu ficar.
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