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MORENA

por Peter, em 22.11.10

Não me chames aquilo que não sou

poeta, que poesia é que há por mim ?

rimo umas letras porque sou assim

um rimador  que nada mais rimou.

 

morrem também  no meu retorno ao fim

breve olvidar de quem aqui passou,

versos, quem os não fez, os não cantou

quando a flor que nasce é um jardim?

 

não me chames poeta, a poesia

se alguma vez me foi tinta na pena

foi só pelo teu olhar, que não me acena

 

como acenou  ao tempo em que o vivia,

só fui poeta então , por simpatia

e por  amar teu rosto de morena.

 

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publicado às 18:45


ALVA

por Peter, em 26.10.10

 

Batia o sol na força dos teus braços

teus cabelos soprando  o arvoredo

o coração pulsava eram compassos

nosso  promíscuo olhar na manhã cedo.

 

muitos dias paravam no destino

lugar de encontro que se fazia a sós,

não sei se eram o mundo, se o divino

quando nada existia além de nós.

 

depois perdi os olhos e trancada

a porta aberta ,ela deixou de  abrir,

esqueci-a no bater de outra morada

 

no estranho esplendor doutro sorrir,

mas não posso dizer que não é nada

o que ficou e não pode sair.

 

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publicado às 22:39


DEPUTADOS

por Peter, em 28.02.10

 

O cigarro entre os dedos, o morrão

a cair sobre folhas de papel

perdidos na bancada , do melão,

três pelos sobre a orla de pincel.

 

por baixo a Bola, jornal de digestão,

bíblia e lume , suprema inteligência,

parece espelho , porca de nação

tão magra que se vê á transparência.

 

assim seja, silêncio, afinidade

á louvação do sim, não faz sentido,

numa trincheira aberta á cavidade

 

como osso sem cão ao cão estendido,

será a vida prisão ou liberdade,

ou apenas ganhar mesmo vencido???

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publicado às 22:21


PARIS

por Peter, em 12.02.10

Neve em Paris, cai leve , leve e fria

o rubro do bistrô  emudeceu,

nas ruas da manhã que se anuncia

passa gente a correr, amanheceu.

 

cobri o corpo á hora que partia

da minha estrada o tempo que cedeu

neve em Paris, no Verão não sucedia

e foi no verão que tudo aconteceu.

 

entro no autocarro, o vinte sete,

que me leva abrigado sobre alvura,

passa gente a correr que se intromete

 

no dia fustigado de espessura,

desço por fim do carro em Chatelet

dobrando á neve a face e a figura.

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publicado às 13:54


AMOR

por Peter, em 22.01.10

Onde fizemos tanto amor, esqueço,

foram mil os locais, não escolhidos,

porém dos corpos não, desses padeço

presentes  que não foram devolvidos.

 

vinhas do mar , do mar salgado, bruma,

seios que amaciava nos meus dedos,

beijos que a tua boca, talvez espuma

nos acordava íntimos segredos.

 

sorvíamos calor , passo após passo

tuas coxas ferventes minha cama,

eram próprias de mim , eram pedaço

 

duma  rodilha em cântaro de lama,

éramos todo o mundo e um regaço

de vida , apenas vida  e uma chama.

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publicado às 22:58


SI

por Peter, em 14.07.09

 

Ah, se fosse um deus de antigamente

igual a tantos  outros que deus fez

cedo voltava ao todo incandescente

num molho de perguntas e porquês

 

ah, que se a natureza inconsciente

não nos tivesse dado a emoção,

será que a consciência do consciente

seria peça da evolução?

 

podia a terra até não ser diferente

mas o homem apenas e talvez

não passasse dum símio que emergente

 

aguardasse no caos a sua vez

um universo insólito , pungente

numa espécie em altura e branca tez

 

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publicado às 19:40


BEIJO

por Peter, em 29.06.09

 

 

  

Foi nesta tábua, talvez de metro e dez,

um verdadeiro  banco do Buçaco,

que te abracei um dia , alguma vez,

subtraindo o peito ao teu casaco.

 

o beijo que então demos fez tremer

o horizonte em toda a dimensão,

o primeiro do corpo, o aprender

os afectos que havia em confusão.

 

assustados, receio de ninguém,

que a razão , sem razão, faziam ver

no banco tosco, humilde, nos contem

 

o desejo de tanto amanhecer,

quando esse começar , era também,

nossa coisa mais bela de viver.

 

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publicado às 19:45


ONDA

por Peter, em 24.06.09

 

Oh ondas deste mar qual o navio

que me leva, se fosse viajar,

era num barco á vela pelo estio

em órbita de areia, a bolinar.

 

tão longe é o areal, que vou remando

pelos limites que são os pinheirais,

mais seco, só deserto, ás vezes quando

se fragilizam sonhos irreais.

 

desfraldo o pano , de norte vem chegando

vento que sopra leve e temperado,

aperto-me no tórax ,soltando

 

da memória simbólico passado

e uma gaivota grita e olho e ando

no mar sereno , apenas naufragado.

 

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publicado às 20:58


PORTO ANTICO

por Peter, em 28.05.09

Hoje, no Porto Antico , que distância

me separa de ti, aqui tão perto,

aqui onde me escondo descoberto

como se fosse o mesmo da infância.

 

aqui onde me abrigo num concerto

que a vida nos reserva no seu caos

vejo barcos entrar que não são naus

mas gigantes do mar , ou do deserto.

 

a cidade murmura em circunferência

metade terra outra metade mar,

passeio num dos cais minha insolência

 

entre partir para nada ou o ficar,

entre a nudez da minha transparência

que já nada mais tem para me enganar.

 

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publicado às 22:27


EXTINÇÃO

por Peter, em 24.05.09

 

Os anos passam a imagem fica
impressionada,único momento
da porta que ao abrir identifica
o relicário do velho convento.

nada se fixou , o tempo foi
continuando breve, acontecer
afastou-se de vez e nada doi
arquivado, que não seja esquecer.

o teu chapeu dizia-se chapeau
e em Montrouge estavamos no verão
era tudo diferente do que sou

restos com outros restos, expansão
dum mar extinto que se evaporou
e não deixou herança nem perdão.

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publicado às 20:00


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